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BRASIL, Homem
   
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O eu irrevogável

A realidade é esta. As pessoas estão solitárias, solitárias num mundo lotado, superlotado, produzindo cada vez mais, cada vez mais, e todos caminhando para

um progresso sem fim. Para onde todos caminhamos sozinhos? Para onde se dará essa viagem sem fim? O que eu asseguro, será a morte derradeira. A mesma morte

das milhares de vidas que foram ceifadas pela história. Isso não muda. Afinal, o que mudou?

O que sinto é um vazio intrínseco do ser humano, um vazio de busca, de motivação, um vazio não momentâneo, mas um buraco que nos acompanha do nascimento ao

óbito. Uma falta que em cada época tentamos preencher inutilmente ao longo da vida, de maneiras diversas, mas sempre tentando preencher esse oco que não nos

ocupa. Hoje em dia estamos ligados no botão de "siga em frente e veja o que acontece". Parece que as pessoas estão meio destinadas a não ter destino. Há

apenas oportunidades que alguns pegam na aleatoriedade da vida.

O mundo é solitário. Digo, nós somos solitários neste mundo. O mundo é um mundo apenas, como um palco, e nós somos atores encenando uma tragédia. Ou,

melhor,nem tragédia. Encenando vidas vazias a maior parte do tempo, com picos de dramaticidade. A realidade é esta. Nós estamos só num mundo com mais de 6

bilhoes de pessoas. Sozinhos. Esta foi a maior das minhas decepções. Ninguém te salvará, porque não é questão de salvação. Você está sozinho no mundo, e com

isso terá de contar, com seu eu absoluto a reverberar o seu eu no seu eu. Um eco de si mesmo. Um eu atrasado no tempo. Alguns podem falar que a família está

ali para te ajudar, que os amigos estão ao seu lado, mas isto tudo é mentira. Está certo que ambos ajudam você a viver de maneira menos oprimida, te empurram

nos momentos difíceis, mas o fato é que o maior desafio da sua vida é a relação de você com você, e isto ninguém poderá ajudar. Você é e sendo você é um fato

irrevogável, eterno. O eu sendo o eu não é ninguém mais. É o eu, introspecto, sem palavras de definição.

 

 



Escrito por Bóris Nabukov às 19h31
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“Cultiva a tua paixão pela ciência, diz ela, mas que tua ciência seja humana e tenha aplicação direta à ação e a sociedade. Quanto ao pensamento abstruso e às investigações profundas, eu os proíbo e os castigarei severamente com cismadora melancolia que eles provocam, com a interminável incerteza de que nunca te poderá livrar, e com a fria acolhida de que terão tuas pretensas descobertas quando quiseres comunicar. Sê filósofo, mas em meio de toda a tua filosofia, não te esqueças de ser homem.”

David Hume em Investigação sobre o entendimento humano


Escrito por Bóris Nabukov às 09h58
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Hoje não é um dia como os outros. Aliás, todos os dias são como os outros, mas eu, nesse caso, não estou como nos outros dias. Quer saber, esquece. Hoje não foi apenas mais um dia e também não estou como nos outros. Apenas é uma confluência de fatores que me levou a escrever um texto como este. De um lado eu, e de outro, a realidade física, que culmina numa realidade virtual, fato que eu poderia chamar de vida.

Enfim, hoje não tive uma vida como a dos outros dias. Fui tomado pelo desprazer das coisas materiais, das coisas fisicamente materiais. O desprazer de não conseguir lidar com as minhas mãos, com minhas pernas, de me sentir encarcerado nos meus óculos embassados. Um desprazer de me movimentar sem elegância, de não estar conectado à nada externo. Uma melancolia de não  se sentir ligado ao ambiente que vivo, de não se sentir a próxima matéria a ser decomposta. Um viver preso às minhas pobres idéias mortas.

Passo os dias a sujar as minhas blusas, a tropeçar em pedras não tropeçáveis, a derramar soluções insolucionáveis. Repetidamente esqueço de respirar, de beber água, de mim.

O final disso é ser uma pessoa alheia a tudo. Uma ser alheio consigo mesmo.



Escrito por Bóris Nabukov às 23h12
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Escrito por Bóris Nabukov às 19h00
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Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



Escrito por Bóris Nabukov às 17h37
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Restou a raiva.
De nunca ser o que sou
De ser o que nunca fui
De for o que nunca serei

 Restou o não-ser
de viver não sabendo o que é
 



Escrito por Bóris Nabukov às 21h59
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E "Edukators" que o diga.

RODA VIVA - Chico Buarque

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...



Escrito por Bóris Nabukov às 22h40
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O mundo nos espera ou  nós esperamos o mundo ? Nenhum nem outro. É apenas um encontro, um passeio. Tanto a gente dá para o mundo como ele nos dá: é um aperto de mãos. Às vezes, é verdade, um aperto bem dolorido. Encontrar o mundo nem sempre é agradável pois este é temperamental. Um dia lhe dá com as caras todo ríspido, mas no outro dia surge um sorriso.  Tentamos entender suas intenções, predizer suas ações. Tudo inócuo, tudo inútil. Alguns o encontram e fazem apenas perguntas. Outros apenas bebem uma cerveja, e nada esperam. Para que esperar? O mundo quase sempre é mudo, mas nem sempre fica calado. Quando necessário, joga um balde de água fria e tudo fica estático. Alguns dizem que ele é frio, não tem sentimentos. Eu prefiro assim: o mundo é aquilo que nós queremos. Se o mundo é grosso, talvez você tenha sido um pouco rude alguns dias atrás. Por isso mesmo, o mundo nunca é injusto. Ele apenas é a reação de você. O estado do mundo nada mais é que o produto deste encontro. Quando encontrá-lo tente cuidar dele. Depois, quando você precisar, ele cuidará de você.

Escrito por Bóris Nabukov às 18h54
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"Se a gente já não sabe mais
rir um do outro, meu bem, então
o que resta é chorar e, talvez,
se tem que durar,
vem renascido o amor
bento de lágrimas"  

Rodrigo Amarante



Escrito por Bóris Nabukov às 11h19
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 Imagine a vida sem você.

Escrito por Bóris Nabukov às 22h25
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A perfeição
                
Clarice Lispector


O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.

Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição. 
 

 

 

                                          Alberto Caeiro, 1-10-1917

 

Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.

 

Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

 



Escrito por Bóris Nabukov às 11h27

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Quem eu quero ser já não me importa, já sou. O que me resta agora é descobrir o que, esse ser que sou, quer da vida. Desvendar o que somos é sobretudo viver. Mas, enquanto isso, se faz o que? E se o que sou nunca vir à tona? Ficarei por aí a imitar a vida alheia, encenando peças teatrais que não me cabem? E no final, o vir-a-ser se portará como se tivesse sido o que pareço ser e o que sou será enterrado sem nunca ter emitido nenhuma palavra. Morrer sem ter sido é uma lástima.

Escrito por Bóris Nabukov às 22h43
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Possuo sempre esse querer algo. E nesse algo que se consegue, achar outro algo que não se tem.  Essa incompletude, esse eterno vir-a-ser.  Acabo nunca estando no lugar que eu estou. Nunca. Estou além ou aquém. 

 Quando morrer, descobrirei que não estive em lugar algum, que não deixei minha alma em nenhuma terra.  Descobrirei que eu fui uma ponte tentando chegar ao outro lado do rio.

 Nunca estar, esta é minha sina.


  O olho olha o outro
  A mente olha o olho
  A mente se olha
  E não vê o outro
  E não vê o olho

  Onde está o outro?
  Onde está o olho?

  O olho está no outro.
 
 
  



Escrito por Bóris Nabukov às 20h44
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O trocador fitava a bela moça com olhos de impossibilidade. Apenas a olhava. Os olhos secos de uma paixão inexistente, separados por um abismo de quatro palmos.  O onibus parou. A moça saiu. Algo morreu.

Escrito por Bóris Nabukov às 21h33
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Culpa

Perdoe-meEunãoqueriater nascidoTambémnãoqueria ter dormidotardeNãoqueriateratrasadoDesculpe-meSeeute magoeiNãoqueriaterumafalatãoincompreensivelDeviaterlidoaquelelivroEu seiNão devia ter bebidoPorquenão mecalei?Comonãomeconsenti?EupodiarespirarmaisOarmefaltaVocêestácertaEureclamodemais.



Escrito por Bóris Nabukov às 21h33
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